“Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus” (Lc 4,13)
1º DOMINGO DA QUARESMA – ANO C
Dt 26,4-10; Rm 10,8-13; Lc 4,1-13
O texto de Lucas, proclamado neste 1º Domingo da Quaresma,
pode ser refletido e meditado a partir de três elementos que nos ajudam em
nosso desejo de conversão. O primeiro deles é a imagem do deserto. É para onde
Jesus vai logo após ser batizado (cf. Mt 4,1); é onde o povo de Deus viveu
durante quarenta anos; é para onde somos convidados a ir nesta quaresma. O que
é o deserto?
O deserto é o lugar do encontro com Deus, da “experiência do
Absoluto de Deus e do relativo de tudo mais, incluídos aí as pessoas e nós
mesmos” (Dom Edson Damian). Dizia Charles de Foucauld que “é necessário passar
pelo deserto e nele permanecer para receber a graça de Deus: é no deserto que
nos esvaziamos e nos desprendemos de tudo o que não seja Deus, onde esvaziamos
completamente a casinha de nossa alma para deixar o espaço todo somente para
Deus”[1].
No deserto também encontramos o demônio que vem para nos
desviar do caminho de Deus. Por isso, o deserto lembra dificuldades,
sofrimento, dor. Foi a experiência do povo de Deus durante sua longa caminhada
em busca da libertação, recordada por Moisés na primeira leitura de hoje. Foi a
experiência de Jesus ao sofrer as tentações pouco antes de começar sua missão,
conforme narra São Lucas. Deus se manifesta, especialmente, nessa hora. Dele
vêm a força e o poder que vencem as tentações e derrotam o tentador.
O segundo aspecto é a presença do Espírito Santo que conduz
Jesus pelo deserto. Só caminha pelo deserto em segurança quem se deixa guiar
pelo Espírito Santo. Ele é a garantia de que nenhum mal nos acontecerá.
Cuidemos, portanto, de não ir para o deserto sem a presença do Espírito Santo.
Deixemo-nos conduzir por ele para fazermos a bela experiência do encontro com
Deus que nos ama, liberta e salva.
As tentações de Jesus no deserto são o terceiro elemento que
nos chama atenção no evangelho deste domingo. Observemos ai duas questões. A
primeira é a astúcia do tentador ao usar a Escritura para dobrar Jesus. Lembra
tantas pessoas que, no passado e no presente, manipulam a Palavra de Deus para
oprimir, explorar, enganar. Jesus também recorre à Escritura, mas para dominar
o tentador, mostrando, assim, a maneira correta de interpretar e usar a Palavra
de Deus. Ela é sempre libertadora. Que a ouve com o coração, jamais cederá às
tentações.
Na carta aos Romanos, segunda leitura de hoje, São Paulo
lembra que esta Palavra, cuja força derrota o tentador, está ao nosso alcance,
está dentro de nós, na boca e no coração (cf. Rm 10,8). Devemos, então, fazer
da Quaresma tempo de especial aproximação da Palavra para que, a exemplo de
Jesus, busquemos nela a inspiração para resistir às tentações que batem à nossa
porta.
A segunda questão mostra que as tentações de Jesus nos
remetem ao Povo de Deus que viveu experiência similar no deserto. Ao sentir
fome, os israelitas murmuram contra Moisés e Aarão e cogitam voltar para o
lugar da escravidão (Nm 14) – primeira tentação; diante da demora de Moisés no
Monte Sinai, o povo resolve construir para si um bezerro de ouro a quem quer
adorar (Ex 32) – segunda tentação; e, diante da falta de água, o povo tenta o
Senhor (Sl 95,8s) – terceira tentação. Ao contrário do povo no deserto, Jesus é
fiel ao Pai e mostra o caminho para não ceder às tentações do poder, da riqueza
e do prestígio, síntese de todas as tentações. Por isso, disso o evangelista: “Terminada
toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus” (Lc 4,13).
O papa Bento XVI diz que o núcleo destas tentações que Jesus
sofre “é a proposta de instrumentalizar Deus, de usá-lo para os próprios
interesses, glória e sucesso. E, portanto, nomeadamente, de se colocar no lugar
de Deus, removendo-o da sua existência e fazendo-o parecer supérfluo. Então,
cada um deveria interrogar-se: que lugar tem Deus na minha vida? O Senhor é
Ele, ou sou eu?”.
Esta Quaresma nos ajude a responder a essas perguntas tendo
presentes esses três elementos: o deserto como lugar do encontro com Deus, mas
também com o tentador; o Espírito Santo, como guia que nos conduz pelo deserto
e nos garante a vitória sobre o tentador e as tentações como realidade humana a
ser vencida pela Palavra de Deus e pela disposição em cumprir a vontade do Pai.
[1]
Citado no artigo “Deserto: lugar do encontro com Deus”, de Dom Edson Damian, no
livro “Espiritualidade do padre diocesano”, organizado por José Bizon, pag. 103
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